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Uma questão de evolução

Desde as últimas eleições norte-americanas, após a bem-sucedida campanha de Barack Obama, discutem-se as possibilidades oferecidas pela internet em relação aos próximos pleitos – notadamente, no Brasil, sua importância nesta sucessão presidencial. As perspectivas soam animadoras: baixo custo, democratização do espaço (acessível a quaisquer partidos), interatividade e participação direta do eleitor, convergência com outros meios e acesso aos jovens em seu "habitat" natural. Interessante, certo? Nos Estados Unidos. Aqui, havemos de convir, a questão é um pouco mais complexa.

O proclamado "milagre" na escalada vitoriosa de Obama é, na verdade, uma evolução – inteligente, sem dúvida – influenciada pelas experiências anteriores e pela cultura do país. O presidente não só deu continuidade ao caminho aberto por Howard Dean em 2004 (governador do estado de Vermont que concorreu às prévias do Partido Democrata pela presidência e que soube, como nenhum outro anterior, dispor dos recursos online a seu favor), como inovou, fazendo excelente uso das redes sociais ao adequar o tom de seu discurso a cada público, singular e heterogêneo. Atraiu a solidariedade dos jovens, que se mobilizaram em favor de sua campanha e saíram a campo para defendê-la. Arrecadou, por fim, uma quantia recorde, o que permitiu o bom desempenho não apenas na Web (somente no Google, foram gastos 16 milhões de dólares), mas também nas mídias tradicionais – união sem a qual o resultado poderia ter sido diverso.

A evolução brasileira, por outro lado, emperra em suas dificuldades. Sociais, culturais, legais. Pesa-nos a baixa penetração popular ao ambiente digital, a falta de interesse da juventude por assuntos políticos e uma legislação restritiva – recentemente alterada, porém ainda restritiva. Há alguns dias, para exemplificar, o TSE negou uma ação do Ministério Público Eleitoral que solicitava a retirada de um blog particular que intercede pela candidatura de Dilma Rousseff. Aparentemente, uma resolução acertada. O ponto emblemático é que, em seu parecer, o relator do caso, ministro Henrique Neves, afirma que "manifestações de apoio, ainda que expressas (...), bem como críticas ácidas que não transbordem para a ofensa pessoal, quando emanadas de pessoas naturais que debatem política na internet, não devem ser consideradas propaganda eleitoral" e declara, ao mesmo tempo, que resguardado o direito à livre expressão, "não se pode permitir que essa manifestação ofenda princípios constitucionais de igual relevância ou afronte as leis vigentes" e que, diante disso, pode-se "determinar a suspensão do conteúdo veiculado em representação que identifique o responsável pelo conteúdo ou em ação cautelar que busque tal identificação".

Por ora, nenhuma revolução

Como, todavia, discernir entre um e outro? E mais: se na internet todos os pleiteantes têm chances iguais (ao contrário do Horário de Propaganda Eleitoral Gratuito, com duração proporcional aos partidos com representação no Congresso), como é que, ao veicular mensagens de apoio, ou fazendo propaganda, um simpatizante pode estar infringindo a lei? Como é que o concorrente A poderia ser prejudicado pela exposição excessiva do B em um blog, se aquele teoricamente tem à disposição instrumentos semelhantes?

É relevante, óbvio, o fato de que vivemos o boom das redes sociais. Diferentemente de 2006, quando que era vetado aos candidatos utilizar a blogosfera e ter perfis nessas redes, no pleito atual tais iniciativas são liberadas. Os presidenciáveis já estão no Twitter, no Orkut, no Facebook, em blogs. Não basta, entretanto, integrar o mundo virtual. Há que se capturar a atenção do eleitorado.

Hoje temos, em média, 66 milhões de internautas – um terço da população – que acessam a web menos em busca de informações políticas do que de entretenimento. Pouco, é claro. De todo modo, sempre podemos contar com os chamados formadores de opinião, aqueles que têm poder de decisão sobre seus grupos e comunidades. Como chegar a eles? Como conquistar-lhes a afinidade e convencê-los a se tornarem aliados? Nossa pretensão, aliás, será somente percorrer a trilha já desbravada pelos norte-americanos, ou teremos capacidade de inovar, de conciliar as ferramentas disponíveis com nossa realidade e nossas necessidades? Expectativas à parte, dado o cenário vigente, o que se pode constatar é que, por ora, não haverá nenhuma revolução.


Por Daniele Barizon

Publicado no Observatório da Imprensa, Via Política e Virtual Partes a partir de 13/7/2010



Mais um tiro no pé da ética

As teorias de manipulação de massa (enquanto turba indistinta e alienada) pelos veículos de comunicação, há muito já foram refutadas por teóricos da atualidade. Tal dominação não ocorreria, entre outros fatores, graças ao papel desempenhado pelas mídias independentes, aliadas à influência dos chamados líderes locais. A possibilidade de se obter informações extra-oficiais, assim como a identificação e pertencimento dos indivíduos a grupos específicos, portanto, fariam a diferença primordial na forma de recepção das mensagens – fundamentalmente as de cunho político.

A eleição do presidente Lula em 2002 – com clara desvantagem em relação ao opositor, no que concerne à cobertura da imprensa dita nativa – talvez seja um bom exemplo para legitimar o argumento. Principalmente considerando-se que, em pleito anterior, "detalhe" como a edição de um vídeo sobre debate entre candidatos à presidência pela TV Globo, em 1989, favoreceu a vitória de Fernando Collor, em detrimento da esquerda de Lula. O espaço de tempo decorrido entre os fatos abarca, ainda, o maior fenômeno responsável pela disseminação do discurso alternativo: a popularização da internet, que também viria a ampliar a até então restrita figura das diferentes lideranças populares.

Em que pese a importância da rede e os processos unilaterais de resistência, entretanto, a balança está longe de ser equilibrada. A simbiose entre mídia e política, duro golpe contra a isonomia, só deixará de ser prejudicial quando houver, efetivamente, a tão propagada democratização dos meios, concentrados em poucas e coordenadas mãos. Enquanto isso, e a despeito de teorias contemporâneas, quaisquer batalhas tenderão a ser desiguais.

O gancho do atraso

O recente escândalo que envolveu o presidente do Senado, José Sarney, o hipotético encontro da ministra Dilma Rousseff com a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, e a discussão em torno das novas regras do pré-sal são interessantes, do ponto de vista analítico, para examinar os mecanismos de persuasão utilizados, eventualmente, por determinadas empresas jornalísticas: partidarismo mascarado nas obstinadas tentativas de desconstrução da imagem do PT, com costuras forçadas entre os assuntos e o uso indiscriminado dos já conhecidos recursos de saturação, tão ao estilo das propagandas nazistas.

O site G1, portal de notícias da Globo, chegou a publicar uma foto, sobre a cerimônia do marco de regulação do pré-sal, em que aparecem lado a lado Lula, José Sarney e Dilma Rousseff. Chama atenção o fato de que o gancho da matéria é o atraso, na chegada ao evento, dos governadores Sérgio Cabral, José Serra e Paulo Hartung.

Interesses privados

O circo forjado sobre o depoimento de Lina Vieira à CCJ gerou muito mais suítes, em publicações de O Globo, Folha e Estadão, que as denúncias de corrupção da gestão de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul e o possível envolvimento do PSDB de São Paulo com a francesa Alston, que teria pago propina de 6,8 bilhões para obter contrato de ampliação do metrô na capital – isso para citar apenas dois casos.

Embora um observador atento saiba discernir entre verdades e mentiras patentes nestes já sabidos métodos de influência social, a estratégia permanece eficaz. Um despropósito, não pela ação de criticar o poder vigente, mas pelo apoio velado a uma oposição que comete os mesmos erros supostamente combatidos por coberturas que se afirmam apartidárias. Desgasta-se assim a imagem de um governo, menos por suas reais fragilidades que por indução, em prol de interesses privados dos grandes conglomerados.

Mais um tiro no pé da ética, em suma.

Por Daniele Barizon

Publicado nos sites Observatório da Imprensa, Via Política e Virtual Partes a partir de 15/09/2009



Jornalismo colaborativo: experiência fadada ao fracasso?

 
"A orientação pluridimensional e heterogênea da comunicação em rede, a exemplo do que acontece em sites que permitem a troca de informações com o público através de fóruns, chats, e-mails ou formulários de publicação (blogs) soterra a concepção de uma mídia linear em nome de uma atividade recursiva. A integração de emissor e receptor na figura do interagente permite que cada pessoa seja um só simultâneo de criação, assimilação e reconstrução da mensagem midiática, desenhando um movimento de relações e trocas que assemelha-se a uma espiral. Tal dinâmica, de viés explicitamente complexo, conduz a uma incessante complementaridade graças às ferramentas de incentivo à interação, que possibilitam a participação ativa de qualquer internauta na produção de mensagens" (Brambilla, A.M., A reconfiguração do jornalismo através do modelo open source. Sessões do Imaginário, 2005).

O jornalismo colaborativo, ou open source, já é prática indispensável nas páginas online dos jornais de grande circulação. Em tempos de crise – da imprensa, diga-se claro – é preciso se adequar à realidade do mercado a fim de não perder posto à concorrência que, aliás, abrange os mais diversos meios, desde os próprios sites de empresas jornalísticas, aos inúmeros portais de notícias e, claro, os cada dia mais popularizados blogs e sites particulares. Não é de admirar, portanto, que alguns veículos tenham ido além do óbvio e apostado em outras possibilidades inovadoras de interação. Intrigantes, por outro lado, são as circunstâncias pelas quais as mesmas novidades se interrompem, sem explicações satisfatórias que justifiquem o ato.

Lógica de mercado

Há cerca de dois anos, o jornal O Globo hospeda, na internet, uma comunidade de relacionamentos que abriga cerca de cinco mil usuários. Trata-se de conjuntos de blogs de distintos temas, mantidos por diferentes perfis de indivíduos cadastrados. Aparentemente uma iniciativa bem sucedida, uma vez que a proposta era justamente a de estabelecer um fórum de debates sobre os mais variados assuntos. No último dia 13, entretanto, a moderação local surpreendeu os comunitários ao anunciar o fim do sítio, dando prazo de um mês aos blogueiros para salvarem o conteúdo de seus posts que, após o período, serão eliminados.

A alegação é de que o referido espaço social já tinha cumprido o seu papel, estando agora necessitado reformulações para melhor se ajustar ao noticiário da rede. O que nos leva, invariavelmente, a pensar que o terreno cedido aos leitores – os quais, com boa vontade e originalidade, trouxeram à baila discussões interessantíssimas e criaram, entre si, fortes vínculos culturais e de amizade – talvez tenha sido mero laboratório de experiências. Ou, numa análise um pouco atrevida, podemos supor que o "suicídio" tenha sido decretado pelo fato de que, ao estimular o livre pensamento, sem censura, o controle possa ter escapado das mãos, ou melhor, da linha editorial da organização.

Em resumo: se o ideal é contrário aos interesses em jogo, torna-se, naturalmente, inviável. Mas, em ambiente dito democrático, não custa nada (por ingenuidade, que seja) perguntar: se a máxima é a da isenção, qual a lógica de pôr freios às francas opiniões? Lógica de mercado, diriam alguns. E não deixariam de ter razão. Afinal, em certos casos, liberdade de expressão é apenas um nome pomposo que, por ora, ainda consta dos manuais.

Por Daniele Barizon

Publicado no Observatório da Imprensa, Via Política e Virtual Partes a partir de 5/5/2009


A crise mundial e a crise da imprensa

No dia 23 de janeiro teve início em Belém, paralelamente ao Fórum Social Mundial, o I Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML). O encontro, que contou com representantes de diversos países, trouxe à baila debate sobre a postura adotada pela imprensa tradicional frente à atual crise econômica que, na opinião dos participantes, afetou diretamente a credibilidade dos meios, considerando a estreita ligação entre a mídia e o poder econômico. Deixando de lado as implicações da questão, per si controversas e abrangentes, vale aqui citar um dos presentes, o mexicano Luiz Hernandez Navarro, que afirmou que o jornalismo já vivia sua própria crise, devido à inaptidão, entre outras coisas, "de lidar com as mudanças profundas que atualmente afetam a comunicação e a perda de prestígio da profissão". O que nos leva a filosofar: qual é, afinal, a raiz do mal que nos assola?

O surgimento diário de blogs, microblogs, sites e portais particulares, somados às iniciativas da chamada imprensa livre, traz à tona um poderoso e condensado conglomerado de informações que, se antes pairavam à margem da dita oficial, hoje a ela se fundem, se confundem e, principalmente, se complementam. A despeito da concorrência saudável, a divisão sugerida e a batalha deflagrada entre as partes, no mais das vezes, atende exclusivamente a interesses (e à guerra de egos) privados. Não se trata de ignorar diferenças, que devem ser respeitadas. Menos ainda de hastear a bandeira branca e abolir o diploma, como querem fazer crer algumas correntes, entre elas a das organizações Globo. Mas de admitir que, na nova configuração, a mídia paralela e, principalmente, o cidadão, tem papel preponderante, e de aliados.

Cobertura abrangente

Várias empresas perceberam no jornalismo colaborativo ferramenta eficaz de atrair a atenção e a fidelidade do leitor/produtor. Boa parcela de seus profissionais, no entanto, permanece reticente. Sinal de que ainda há muito que aprender. O reconhecimento da necessidade de capacitação para fazer frente às novas tecnologias talvez seja o primeiro passo. A trégua, e conseqüente superação do preconceito, o segundo.

Registros de falhas nesta união não são raros. Exemplo clássico é o da foto enviada por internauta que o site UOL publicou, à época do acidente da TAM, de corpo em chamas que caía de prédio atingido, e que mais tarde admitiu tratar-se de montagem – mea-culpa, aliás, dos jornalistas responsáveis pelo setor. Shakespeare, em Péricles, já dizia: "A verdade nunca perde em ser confirmada." As vantagens, por outro lado, se sobrepõem e merecem destaque. A abrangência da cobertura é uma delas. Com um simples celular, qualquer espectador pode capturar imagens e revelar detalhes significativos de fatos relevantes em tempo real. Ponto para o veículo capaz de conquistar sua fidelidade.

Por Daniele Barizon

Publicado no Observatório da Imprensa e Virtual Partes a partir de 3/2/2009
Integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins



Uma curta retrospectiva

Mais um ano em vias de encerramento e a regra, como de praxe, é posta em prática: a maioria dos veículos lança cadernos especiais, matérias e reportagens de retrospectiva dos momentos marcantes. O gesto, que não deixa de ser excelente recurso de pauta complementar (de aprovação pública garantida), é sempre um motivo para avaliar a cobertura mídiática em relação aos referidos acontecimentos.

Para chegar a um bom termo, aliás, nem precisamos ir tão longe. É suficiente darmos conta destes dias corridos de dezembro, profícuos em notícias interessantes, como a votação pela demarcação contínua do território da Reserva Raposa Serra do Sol, o rebaixamento do Vasco da Gama, a contratação do jogador Ronaldo pelo Corinthians, a interrupção e o retorno às bancas do jornal Tribuna da Imprensa, a morte do ex-PM Marcelo Silva, o julgamento de um dos envolvidos no assassinato do menino João Roberto e a turnê da cantora Madonna. Enfim, período de intenso movimento nas redações.

Todas as ocorrências foram pautadas, como não poderia deixar de ser. A ordem de prioridades, no entanto, merece observação. No topo, absoluto, o sensacionalismo visceral em torno dos fatos que supostamente atraem a massa: a trágica morte do ex-marido da atriz e o show da diva pop. Foram – e são – extensas suítes e intermináveis links com riquezas de detalhes irrelevantes, como os que descrevem itens do cardápio dos camarins da cantora, de seus filhos e de seu staff.

Jornalismo colaborativo preenche lacuna

Sobre o falecimento do ex-PM, um jornal popular chegou a destacar, em capa deste domingo, declaração de religioso que credita o desfecho infeliz à ação de magia negra. A última edição da revista Veja, que também traz o caso estampado em capa, é um belo e encorpado resumo, em que se tem a oportuna idéia de comparar o drama real a cena de ficção.

Quanto aos temas esportivos, a atenção à recente aquisição do clube paulista, carregada de especulações, foi muito maior que a dada ao rebaixamento do time carioca. De qualquer modo, pode-se dizer, ambas satisfatórias. Por fim, os desdobramentos do episódio de Roraima, que foram explorados a contento apenas pelo Globo e Estadão; a absolvição de um dos acusados do homicídio de João Roberto, que teve, talvez pela primeira vez, enfoque coerente (possivelmente porque, nesta ocasião, havia fartura de assuntos a perscrutar); e o da Tribuna da Imprensa que, como já colocou Alberto Dines, foi propositalmente ignorado pela grande mídia.

Enquanto isso, e como de hábito, passam ao largo outras questões, como o debate realizado na ABI (Associação Brasileira de Imprensa) sobre a necessidade de uma nova Lei de Imprensa, com presença da autora de projeto que tramita no congresso, a senadora Seres Slhessarenko,e o presidente da casa, Maurício Azêdo, entre outros. A discussão, que certamente interessa à imprensa, deveria dizer respeito também à sociedade, uma vez que pode afetar os modos de se transmitir informação. A comunicação informal – o chamado jornalismo colaborativo – entretanto, através de blogs e sites particulares, acabou preenchendo a lacuna deixada pelos meios tradicionais. O que tem sido natural, ultimamente.

Em tempos idos, se não houvesse novidade, saía-se à rua para morder cachorro. Hoje, pelo visto, a moda é cutucar os animais feridos.

Por Daniele Barizon

Publicado no Observatório da Imprensa, Via Política e Virtual Partes a partir de 23/12/2008
Integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins



Entre pesos e medidas

Veritá Effettuale, ou verdade efetiva, é um conceito utilizado por Maquiavel, em O príncipe, para justificar as ações de dominação de um chefe sobre sua nação. Segundo o autor, devemos examinar a realidade como ela é, e não como gostaríamos que fosse, razão pela qual, explica, seria lícito um líder valer-se de quaisquer métodos, inclusive escusos, para manter a ordem e garantir sua soberania. Em resumo, ter “sabedoria para agir conforme as circunstâncias”. Apesar de vastamente criticada, a máxima ainda anda em voga na maioria dos governos. E das mídias, claro.

A pressão exercida por parte da imprensa (atente para a palavra parte), em alguns casos – como, por exemplo, o Satiagraha – quase nos faz crer que determinados profissionais estejam de fato sequiosos de justiça. Não se iluda, leitor. Trata-se, no mais das vezes, de tapas de luvas (em certos embates outros objetos menos delicados) entre girondinos e jacobinos do chamado quarto poder – o que, se não é sempre saudável, ao menos serve para esclarecer, quando cuidamos de peneirar as informações. Questão de pesos e medidas. É melhor julgar o excesso que a falta, não?

Um aparte, pelo visto, é o da PRP 92/07, lei complementar que se ocupa da criação da Fundação Estatal do Direito Privado para áreas estratégicas como saúde, assistência social e meio ambiente, entre outros. Amor e ódio sim, mas apenas entre os principais interessados. Se pesquisarmos sobre o assunto, encontraremos vários vestígios do duelo entre funcionalismo público e publicações governamentais, contra e a favor, respectivamente, de sua aprovação. Os veículos ditos imparciais, entretanto, optaram por transcrever os fatos sem muitos detalhes, ou, mais especificamente, como habitual, sem apresentar de modo satisfatório suas implicações, o que não deixa de ser uma tomada de posição. Foram matérias, via de regra, que expuseram o tema de forma genérica e disfarçadamente – ou não tanto assim – partidária.

Mantendo ao largo a emblemática discussão Estado x Capitalismo (enfraquecimento do aparato estatal, “privatização” de setores-chave, etc.), se as publicações eram equitativas, pecaram por não apresentar algumas das principais contradições entre os argumentos: se por um lado findam-se as regalias do funcionalismo público, que passaria a ter seu desempenho constantemente avaliado e cumpriria metas como qualquer classe de trabalhadores regidos pela CLT, por outro essa flexibilização na contratação acarretaria a criação de ambiente propício às indicações e trocas de cargos entre aliados políticos, em negociações de apoio. Ainda que fosse “desburocratizado” o atendimento nos hospitais universitários, vagas gratuitas diminuiriam em função da necessidade de leitos particulares.

Temática de tal monta, aliás, deveria ser incitada a tornar-se discussão popular, quiçá definida através de plebiscito, onde pudesse prevalecer a opinião da maioria (uma forma de a sociedade exercitar o direito de decidir sobre o que lhe diz respeito), sob a batuta de analistas atuantes, mesmo que DECLARADAMENTE a seu favor, ou contra. E o povo que fizesse seu dever de casa e tratasse de pesquisar para escolher a opção conveniente.

Trabalhoso e injusto? Talvez. Mais simples, no entanto, que esperar que comunicadores autoentitulados neutros atuem genuinamente como auxiliares na articulação de ideias que objetivam pura e simplesmente a elucidação da população. Afinal, em se tratando de certos meios, “todos vêem aquilo que pareces, (mas infelizmente) pouco sentem o que és”.

Por Daniele Barizon


Publicado no Observatório da Imprensa, Via Política e Virtual Partes a partir de 22/11/2008
Integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins



O mito nas eleições

De acordo com uma de suas várias definições, mito é “a expressão de uma ideia, doutrina ou teoria filosófica sob forma imaginativa, onde a fantasia sugere e simboliza a verdade que se pretende transmitir”. Para Nietzsche, “o mito não encontra, de maneira nenhuma, adequada objetividade no discurso”. Isso porque difere da lógica, ou melhor, porque transcende a razão, e a recria. A aura de magia e de mistério que o envolvem, suficientes para suplantar a sempre cansativa, burocrática e injusta realidade, não raro é irresistível. Idealizar heróis salvadores que enfrentem – e de preferência vençam – malfeitores e suas peripécias (ou, porque não dizer, nossas mazelas sociais), é mítico e delicioso. E igualmente perigoso, quando a sedução da imagem afeta a tomada de decisões importantes, como a escolha de um candidato.

O que, senão fração de misticismo, induz parcela da população a crer que figuras expoentes, como atletas ou artistas, resultarão em bons governantes? O que a faz se apegar a detalhes sem quaisquer relevância, como aparência, sexo ou cor de pele, ignorando currículos e virtudes reais, a despeito do bom senso, e acima de vantagens pessoais? De acordo com uma de suas várias definições, mito é “a expressão de uma ideia, doutrina ou teoria filosófica sob forma imaginativa, onde a fantasia sugere e simboliza a verdade que se pretende transmitir”. Para Nietzsche, “o mito não encontra, de maneira nenhuma, adequada objetividade no discurso”. Isso porque difere da lógica, ou melhor, porque transcende a razão, e a recria. A aura de magia e de mistério que o envolvem, suficientes para suplantar a sempre cansativa, burocrática e injusta realidade, não raro é irresistível. Idealizar heróis salvadores que enfrentem – e de preferência vençam – malfeitores e suas peripécias (ou, porque não dizer, nossas mazelas sociais), é mítico e delicioso. E igualmente perigoso, quando a sedução da imagem afeta a tomada de decisões importantes, como a escolha de um candidato.

Há poucas décadas, teóricos apregoavam que os meios de comunicação manipulavam as massas, turba alienada, ao mesmo tempo inocente e perigosa. Atualmente há equilíbrio na discussão, (quase) dialética. Fala-se sobre consciência crítica, peso de culturas arraigadas e influência de grupos específicos, através da representação dos chamados “líderes” locais. Diverge o cenário, e a utopia também sofre transformação histórica: o protagonista não é mais o super-homem Nietzschiano, perfeito deus em si.


Pode ser qualquer um. Uma celebridade instantânea, apta pela sua projeção, ou ainda um Robin Hood contemporâneo, injustiçado e portanto vingativo. O anti-herói, aliás, jamais esteve tão em voga. Jorge Amado, que trouxe à luz nobres ladrões, dignas prostitutas e honrados assassinos, cada qual com seu código de ética particular, possivelmente não ficaria surpreso ao constatar que no Rio de Janeiro, por exemplo, são eleitos indivíduos enquanto presos, acusados de crimes graves, ou que têm apoio incondicional do tráfico. Ou que em Salvador, muitos chorem a queda de tradicional curral coronelista.

Tipificar ações a partir de conceitos genéricos e polêmicos é injusto, já dizia Umberto Eco sobre o próprio título de sua obra, no prefácio de Apocalípticos e Integrados. Por outro lado, se nos abstemos de apresentar os fatos através de rótulos que bem os definam, por temor da apreciação dos termos escolhidos, corremos o risco de incorrer em análise superficial. Mais do que nunca, hoje funde-se – e confunde-se – o embate entre “bem” e “mal”, entre esquerda e direita, entre liberal e conservador. Como recentemente afirmou um aspirante a cargo público (e talvez não sem causa), isso é coisa do passado. É hora de seguir adiante. Seja como for, e sob pena de pecar pelo excesso, faz-se jus a aferição de que a força motriz, o combustível de muitas mentes, ainda é a ilusão da divindade fabricada.

Por Daniele Barizon

Publicado no Observatório da Imprensa, Via Política e Virtual Partes a partir de 10/10/2008
Integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins



 Apenas uma questão de suíte 

No jargão jornalístico, suíte (do francês suite, seqüência, série) significa retomar um assunto, perscrutar seus desdobramentos, a fim de transformá-lo outra vez em notícia. A maior parte das editorias recomenda, no encadeamento de um tema, que fatos anteriores sejam relembrados. Procedimento corriqueiro, portanto, repisar matérias. O que fomenta a crítica, no encalço deste processo, é a tendência das sucessivas repetições – que quase ou nada acrescentam à pauta original – estimuladas para cobrir "buracos" ou simplesmente alavancar audiência, pela exploração incessante dos chamados casos de comoção nacional.

O problema, que não é recente, agrava-se no cenário atual. A velocidade com que a informação hoje circula, e a necessidade de suprir as demandas dos diversos meios em tempo real, alterou de modo significativo a rotina das redações. A sensação de efemeridade, que empresta ao profissional a liberdade de discorrer sobre o que quer que seja de maneira despreocupada e superficial (afinal, logo outro argumento irá sobrepô-lo), nunca esteve tão latente.

Transcrever as notas (mal) apuradas, novidades ou seqüências torna-se simples ato mecânico. Acrescente-se ao quadro uma antiga tendência editorial, agora facilitada pela instantaneidade da internet: a elaboração de pautas através da análise de abordagens feitas por veículos concorrentes. Não há dúvida de que temos aí um círculo vicioso.

Várias peculiaridades

Como, então, explicar outra deficiência, que parece contraditória se comparada às citadas: a falta de espaço na mídia para a retomada de algumas notícias? Com toda a discussão acerca dos erros cometidos pela polícia do Rio de Janeiro e polêmicas relacionadas – como a troca de fuzis por armas menos letais, por exemplo –, o que explica o silêncio da imprensa sobre o julgamento do militar Marcos Alves da Silva, um dos acusados pelo Ministério Público da morte de Hanry Silva Gomes de Siqueira, 16 anos, na comunidade de Lins e Vasconcelos, ocorrida em novembro de 2002?

Exposto a princípio como traficante, as circunstâncias sobre o assassinato do rapaz vieram à tona muito mais tarde, através dos esforços de sua mãe, que literalmente atuou como repórter investigativa, reunindo provas indispensáveis para levar adiante o processo. Entre as várias peculiaridades do caso, estão a quantidade de advogados do réu, aparentemente incompatível com seu salário, a mãe-repórter da vítima ser apontada nos autos como assistente de acusação, e o fato de o advogado contratado para auxiliar na promotoria ser o mesmo que defende o ex-policial Anderson Souza, indiciado pela morte do milionário René Sena.

Falhas constantes

Detalhes talvez sem relevância, mas que, no mínimo, suscitam curiosidade. Assim como tantos outros, perdidos no esquecimento e na burocracia do tempo, eventualmente ressuscitados por insatisfatórias notas de rodapé. Perde o editor, perde o jornalista e perde o leitor, a quem no fim das contas poderia interessar o aprofundamento da matéria.

A reinserção de determinados assuntos, que podem ou não vir ao encontro de questões presentes, quando trazidos à baila com o objetivo claro e desinteressado de fazer cumprir função essencial do jornalismo – manter a sociedade informada – é mais uma opção contra as constantes falhas oriundas de procedimento tão corrente – a simples e censurada suíte.

Publicado no Observatório da Imprensa em 12/8/2008
Integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins

 

O papel das agências reguladoras e o fio tênue da democracia

Recentemente, o Jornal O Globo publicou matérias sobre os obstáculos impostos pelo poder estatal aos meios de comunicação. O conjunto de reportagens, denominado Quarto poder na alça de mira, segundo proposta, busca trazer à tona as “dificuldades de fazer a informação chegar ao cidadão sem as interferências do estado”.

O governo argentino, que figura com destaque na lista, de acordo com os dados levantados por Janaína Figueiredo, estaria atuando por trás de Observatório dos Meios de Comunicação, cujo propósito principal seria “controlar o trabalho informativo” propagado pela mídia. A correspondente, no entanto, comete um equívoco ao noticiar que o órgão foi criado recentemente.

Nascido em novembro de 2006 (proposta n.º 208 do Plano Nacional de Combate à Discriminação, aprovado pelo Decreto n º 1086/05), ocorre é que o Observatorio de Discriminación en Radio y Televisión ganhou mais força – e conseqüente atenção – atualmente. O interventor do Comitê Regional de Radiodifusión (COMFER, que regula, controla e fiscaliza a instalação e funcionamento das emissoras de rádio e tevê do país), Gabriel Mariotto, em entrevista, reafirmou que a função do Observatório – que é da jurisdição do COMFER, com auxílio do CNM (Conselho Nacional da Mulher) e do INADI (Instituto Nacional Contra a Discriminação, Xenofobia e Racismo) – é atuar como crítico dos excessos cometidos pelos meios em casos específicos de discriminação. Não tem caráter punitivo, mas apresenta relatórios periódicos ao governo e pode sugerir mudanças nas leis de radiodifusão. Para os comunicadores hermanos, porém, não passa de uma ferramenta de censura, haja vista as turbulentas relações do casal Kirchner com a imprensa. Um caso a se pensar, sem dúvida...

O cenário brasileiro

Em São Paulo, no dia 17 de julho, durante o IV Congresso de Publicidade, foi lançado pelo CONAR (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) um manifesto conclamando a sociedade a participar das discussões acerca das restrições impostas à propaganda de bebidas alcoólicas. Entre outras afirmações, o documento repudia “todas as iniciativas de censura à liberdade de expressão comercial, inclusive as bem intencionadas”, uma vez que “é dever das empresas, inclusive as da indústria da comunicação, a busca da rentabilidade e lucro, resultantes dos serviços que prestam”. No âmbito eleitoral também existe controvérsia. Em maio, o TSE proibiu veiculação de banner do candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira, no blog do jornalista Pedro Dória, sob pena de cassação da candidatura do ex-deputado. Dória conclui que “o gesto do Tribunal é uma censura”, uma vez que trata-se de sua opinião pessoal.

A polêmica segue adiante, e atinge outras esferas sociais, como por exemplo a justiça e a legalidade da transmissão de informações confidenciais. Em todas as culturas, é latente a preocupação com o que é ou deve ser exposto pela mídia, seja através de agências reguladoras ou setores privados, como ONGs e associações de profissionais de distintos setores. A questão é complexa. E a balança, como de hábito, tende a ser desequilibrada. No caos dos excessos/arbitrariedades/retrocessos, há que se criar limites, certamente. Mas dentro dos parâmetros da democracia.

Por Daniele Barizon

Publicado no Observatório da Imprensa em 21/07/2008
Integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins



Nas sendas da evolução

O avanço da mídia, com o advento da internet, é incontestável. A informação, desde então, transita com velocidade entre produtores (a cada dia mais popularizados) e receptores, tornando instantânea a reação. Ao mesmo tempo, o aperfeiçoamento de outros veículos como o rádio, a tevê e o meio impresso (que se utiliza da rede como complemento), acelera a produção de gama extraordinária de notícias, que desabam sobre nossas cabeças em fluxo contínuo. Se não cuidarmos filtrar o que absorvemos, corremos o risco de ser influenciados pelas ideias mais estapafúrdias.

Não é recente a preleção de ascendência dos meios de comunicação sobre os indivíduos. A atenção para a então chamada sociedade de massa, subjugada pela espetacularização dos fatos e manipulação de consciências pela imprensa, conforme paradigmas de Adorno e Horkheimer, enceta-se pela década de 30, tendo como pano de fundo o nazismo e os hábitos norte-americanos, sob a percepção de filósofos judeus emigrados e decepcionados com os rumos da cultura ocidental. Hoje essas teorias já caíram em desuso. Mas as influências ainda ocorrem, por outros prismas. Muito em voga, diga-se de passagem, anda o conceito da “fatalização”.

Ultimamente, novidades chocantes têm invadido nosso cotidiano, deixando-nos estarrecidos e fazendo-nos engrossar o discurso de que o mundo anda mesmo de pernas pro ar. No Rio de Janeiro, diariamente, tráfico e violência estampam os noticiários. De São Paulo, não fala-se outra coisa que não seja a tragédia de menina jogada do sexto andar de prédio, supostamente pelo próprio pai. Na Bahia, coordenador de curso de medicina de tradicional faculdade vale-se de antigos pressupostos Darwinianos para classificar seus conterrâneos de inferiores. Em Manaus, embarcação não legalizada naufraga, vitimando quantidade ainda não mensurada de pessoas. No Sul, fenômeno climático é responsável por mortes e devastação. Isso para falar apenas de Brasil. Em âmbito mundial, o cenário é ainda mais aterrador.

Demais? Concordo. Mas, será mesmo tão diverso do nosso vergonhoso passado, que ainda traz vestígios das chagas provocadas por guerras, extermínio em massa, assassinatos cruéis, escravidão e grandes desastres naturais?

A notícia atual sempre nos parece mais extraordinária, uma vez que afeta diretamente nossa rotina. Alguns órgãos, de acordo com o nível de audiência e/ou outras conveniências, tendem a superexplorar determinados assuntos e criar verdadeiro circo sobre os acontecimentos. A consternação pública é evidente, como se verifica no caso Isabella Nardoni. Aterrador sim, atípico e monstruoso. Tal qual muitos outros, que não chegaram a atingir a mesma repercussão. Como exemplo podemos citar o de Laila Fonseca, 9 anos, em abril, cujo corpo foi encontrado enterrado em casa de amiga, em Goiás. Ou do estudante Cayro Emanuel, 12 anos, em fevereiro, que faleceu após ter sido baleado em colégio, em Petrolina. Os irmãos Luisa e Evandro, de 1 e 2 anos, foram assassinados pelo pai, em janeiro, no Planalto. No ano passado, em Araguari, menina de 4 anos foi morta a pedradas, após ter sido estuprada por vizinho. Poderiam ter sido mais divulgados? Sem dúvida. Penso, entretanto, que o foram na medida certa. O mais, é teatralizar.

A sociedade, com seus feitos grandiosos no campo da ciência e da tecnologia (e com sua tendência irrefreável ao desmatamento e à poluição), ainda engatinha. Na evolução pessoal do indivíduo, na sua humanização e conscientização, na real valorização dos sentimentos e das virtudes. A mídia progride gradualmente, desde tempos idos. Mas, assim como sucede ao homem, está longe de apresentar-se totalmente irrepreensível, impoluta e ética.

Esperemos, pois, que cidadão e seu instrumento ascendam juntos. Neste ínterim, ansiemos apenas por respirar um pouco das boas novas que, no carrilhão desta enxurrada diária, para nosso alívio vêm a ela atrelados.

Por Daniele Barizon

Publicado no Observatório da Imprensa em 06/05/2008
Integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins