sábado, 10 de março de 2012

O Militante

Segue o capítulo II de nossa pequena série:


II - O irmão e o tesouro


Aos doze anos, Simplício arranjou trabalho como ajudante numa barraca de importados, no centro da cidade. Todos os dias acordava cedo, tomava um café minguado e vencia a pé a distância que separava sua casa do precioso emprego. Ia, senão feliz, conformado, porque uma vez lhe disseram que um modo de enriquecer seria ir guardando dinheiro, cada vez mais, o que só seria possível se tivesse uma ocupação fixa. Com remuneração certa, seria bem mais fácil ir fazendo sua fortuna.


Esconder de sua mãe que estava trabalhando, para não ter que entregar-lhe o salário, foi o menor dos problemas. Ninguém lhe pedia satisfações, e contanto que deixasse vez ou outra uns trocados, como sempre fazia, não era incomodado. Desafio maior estava sendo onde ocultar as notas. No começo levava tudo consigo, dentro do único par de sapatos que usava todos os dias. Mas o par, que já era antigo, com o acréscimo de volume apertava ainda mais e incomodava. E ele sabia que a qualquer momento podia ser roubado pelos outros moleques, que ali era um lugar onde os entendidos sempre procuravam. Passou a deixá-las no quintal, embrulhadas num saco, estrategicamente embaixo de um amontoado de pedras que conservavam ali intactas desde que se entendia por gente, e onde sabia que nenhum deles iria mexer. Muito pior. Por causa disso passava os dias agoniado, imaginando que algum dos garotos pudesse encontrar seu tesouro.


“Se quiserem roubar vão ter que me encarar”, pensou por fim. E voltou a guardar o pagamento no sapato.


Naquele dia voltava satisfeito. Tinham feito vendas boas, o que lhe rendeu um faturamento extra. Por conta da gratificação adicional do patrão, que enfim reconhecia o seu empenho, estava um pouco mais rico. No bolso da bermuda, levava uma barrinha de chocolate. Presente para o irmão mais novo, Detinho.


Dois anos de idade, Detinho era o que mais se parecia com ele. Aprendendo com a necessidade a se virar desde cedo, o pequeno dava mostras de inteligência e sagacidade, e sabia conquistar os outros. Bastava um olhar e um sorriso, na rua, para que estranhos lhe dessem o que quisesse. E o que mais pedia era chocolate, que tanto amava. Pena que não saía muito de casa, ou já estaria gordo de tanto ganhar as coisas. Principalmente agora, que estava precisando. Andava abatido por causa de uma virose, que o acompanhava já fazia alguns dias. De uma hora para outra se recusara a comer e a brincar, e andava amuado. Por insistência de vizinhos, foi levado ao hospital e diagnosticado.


Receitaram-lhe alguns remédios que não foram comprados, por falta de dinheiro. Teve pena do irmão, pensou em comprá-los, mas não queria gastar seu lucro. De mais a mais, falou para si mesmo, essas gripes se curam sozinhas. Sempre foi assim com eles. Era só esperar e deixar passar. O que não gostava era de vê-lo tão tristinho. Levava o presente e já se regozijava com a carinha feliz que ele faria.



Chegando em casa encontrou o portão aberto, e uma movimentação pouco comum. Pessoas se aglomeravam pelo quintal, em grupos fragmentados, e falavam em voz baixa. Estranhando o discreto alvoroço, entrou sem ser notado e viu os irmãos na sala, sentados juntos, quietos e de cabeças baixas. Com eles uma das vizinhas, que tinha no colo e perto de si também os seus filhos. Faltava Detinho. A vizinha o encarou de modo estranho, estendeu a mão.


“Cadê Detinho”, perguntou.


A mulher estendia a mão, chamava-o para perto de si.


Um frio percorreu-lhe a espinha. Abalou-se para o quarto. A cena, que jamais iria esquecer, o chocou brutalmente. Agonizando, inerte, jazia o caçula na esteira, com a cabeça deitada no colo da mãe, que o fitava sem expressão. Do lado dela, outra vizinha. Encostado na parede, ao fundo, o padrasto mirava o chão.


“Tem jeito não”, dizia a outra.


Chegou-se para junto do doentinho, ajoelhou ao seu lado e tocou-lhe os cabelos molhados e o corpinho quente. Lágrimas caíam-lhe profusamente, não se importava que o vissem chorar, mesmo quem dissesse que homem não chora. Detinho encarava-o com os olhinhos opacos, já quase sem vida.



“Faz alguma coisa, mãe”, gaguejou. “Faz alguma coisa, nunca te pedi nada”.


A mãe nem se mexia.


“Tem jeito não”, respondia a outra.


O peito magro da criança arfava, cada vez mais devagar. Seu rostinho buscou a direção do mais velho, que lhe acariciava a cabeça. Este levou a mão ao bolso e tirou o chocolate, mostrando-o devagar. Procurou-lhe a mãozinha e o pôs entre seus dedos, que afagou e fechou delicadamente.


Detinho morreu com o doce entre os dedos.


“Tinha jeito não”, consolou a outra.


Simplício caiu em prantos. Seus sapatos nunca lhe pareceram tão apertados.



Sds,



Daniele Barizon