quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Militante

Olá, amigos!

Por conta de alguns trabalhos, não temos tido oportunidade de vir aqui frequentemente. Por isso, como estamos fazendo com nossa coluna no jornal OERJ,  traremos, em alguns posts, uma pequena série de crônicas, intitulada O Militante. A sequência tem sete capítulos e integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins, publicado por nós em 2009. Acompanhem:


Introdução

Nossa realidade política é chata. Ninguém agüenta mais os mesmos desgastados assuntos, as mesmas eternas insatisfações, a incidência nos mesmos erros e as mesmas soluções miraculosas para os mesmos milhares de disparatados problemas. Já virou esculhambação. Não quero mais falar sério. Vamos brincar de ficção. Esse não é um fato real – não por ser ilógico ou paradoxal: a nossa história goza de casos ainda mais absurdos. Qualquer semelhança com a realidade, portanto, terá sido mero acidente de percurso... 

I – A criança

A casa era simples. Quarto, sala, cozinha e banheiro. Reboco nas paredes, tinta só mesmo na sala, um branco meio ralo. Chão de cimento, móveis envelhecidos, quintal de terra batida, com algumas plantas murchas e diversos animais magrelos e poeirentos. Ali crescia Simplício, entre os gritos da mãe, os cascudos dos padrastos e as estripulias dos meio-irmãos. Era o mais velho. Desde pequeno posto porta afora, para “trabalhar e aprender a ser homem”, como dizia a mãe.

“Engraçado”, pensava o garoto. Se o trabalho, que era importante, passava longe dos homens da casa, o que ele tinha que ver com tudo aquilo de acordar cedo e sair pela rua procurando meios de ganhar trocado? Será que em pequeno é que se fica conhecendo o trabalho e quando se cresce – quando já se aprendeu, imaginava – não precisa mais fazer esforço?

Meditava sobre isso enquanto capinava um quintal ou caminhava a esmo à procura de latinhas de alumínio para vender. Sonhava com o dia em que finalmente aprendesse a ser homem, para nunca mais ter que trabalhar. Odiava trabalhar. Gostava mesmo era de correr pelo morro com os outros moleques, de jogar futebol e de andar escondido atrás das meninas, apenas seguindo-as a distância, sem se fazer notar, como se as quisesse proteger de perigos imaginários.

Se alguém lhe perguntasse – se alguém reparasse no garotinho baixo, de cabelos sujos e roupas rasgadas – não saberia explicar o porquê de perder tanto tempo escoltando os passos de gurias que muitas vezes nem sequer conhecia. Não saberia explicar muitas coisas, aliás. Pouco entendia da vida e das causas de tantas reclamações e insatisfações. Não ligava. Não lhe importavam essas complicações dos adultos. Apenas uma coisa queria entender, obstinadamente:

Por que outras crianças moram em prédios bonitos, vão à escola e têm coisas que ele e os irmãos não têm?  
“Por que são ricos”, era sempre a resposta.

Mas por que os outros eram ricos e eles não?

“Porque a vida é assim mesmo, alguns têm e outros não”.

Mas por quê?

A paciência geralmente se esgotava aqui. E ele ficava sem a resposta, perguntasse a quem fosse.

Os dias iam se sucedendo, devagar, e nada era diferente na monótona rotina de Simplício. A não ser uma inquietação que ia nascendo, por enquanto muda e surda. Seu maior anseio ia tomando forma. E o que com frequência desejava mais ardentemente – mais até que crescer e ser homem – era ser rico.


Sds,

Daniele Barizon

10 comentários:

  1. Boa noite amiga Daniele Barizon,
    Acabei de ver sua visita, no meu blog, a qual venho agradecer, e desejar para você uma noite muito feliz.
    Quanto ao seu texto. Política e mais política.
    Como aqui em Portugal, política, políticos e justiça andam por aí de mãos dadas.
    Passeando e gozando às custas de quem trabalha, e deixam o barco a deriva até ele se afundar!

    Um beijo.

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  2. Entendo que, independente da política, sempre desastrosa, educar uma criança é preponderante, se desejamos ver algo mudar. Criar a ambição de "ser rico" em uma cabecinha que não conhece a vida pode trazer sérias consequências, como a ausência de valores éticos e morais. Semelhante àquela que presenciamos em muitos dos governantes.

    Obrigada pela visita, que retribuo com prazer. Bjs.

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  3. Um dia repleto de paz e poesia pra ti minha amiga querida...beijos e beijos.

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  4. Oi Dainele!
    Sempre bom ler um texto seu e ver como você trata problemas que muitas vezes passam despercebidos.
    e com certeza temos muitos Simplícios por ai nesse nosso Brasil.
    mas poucos chegam ao seu objetivo.
    Grande abraço.

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  5. Gostei muito, Daniele.

    Perguntas sem respostas que vão criando no seu íntimo as sementes da revolta. Tema muito bem tratado. Fico a aguardar mais...

    Bjo

    Olinda

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  6. Daniele, obrigado pela visita.
    Conheci um Simplício quando criança.
    Não o vi mais. Não sei se está rico hoje, mas soube que era funcionário da Receita Federal.
    Um abraço, beijos.

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  7. Olá, bom final de semana Daniele
    Gostei desse outro gênero de escrita. Bem escrito, pois reporta-te a essas questões do cotidiano, de tantas pessoas. Perguntar, ficar inqieto com aquilo que não comprendemos nem entendemos é um dos segredos para ser um ser ativo, MILITANTE DE CAUSAS.
    Saudades, Bjs

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  8. olá miga querida! Não esqueça de pegar o selinho do Dia das Mulheres, ofereço com maior carinho! :) e, porque afinal, dia da mulher são todos os dias.... um viva para nós:)
    bjinho amigo
    Joana Neves
    http://joana-neves.blogspot.com

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  9. Amigos, obrigada pela visita. Segue acima a sequência.

    Bjs!

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  10. Dani querida, "Castelos Na Areia E fatos Afins" está aqui ao meu lado. :)
    Crônicas deturpadas sobre realidades tortas. :) Todo seu talento e todo o meu parabéns!!! Mais uma vez, né?

    Um beijo , amiga. :)

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