quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Militante - III

Olá, amigos. Segue capítulo III de nossa pequena série, constante no livro Castelos na Areia:

III – Alma de rica

Desinteressado de tudo – inclusive do trabalho – Simplício tornava-se cada dia mais absorto. Nunca tinha vontade de sair de casa, e fazia esforço tremendo para levantar-se e cumprir suas obrigações. Vez ou outra, nos dias ou noites de folga, deixava-se ficar na janela durante horas. De frente para a rua, via passar as pessoas. Por mais diferentes que fossem, achava-as todas iguais. Homens geralmente magros, mal vestidos, e mulheres acabadas, por mais jovens que fossem. O mesmo semblante marcado.

“Cara de pobre”, alguém disse uma vez.

“E pobre tem cara?”

“Tem, claro que tem.”

A resposta era unânime. Olhou-se no pequeno espelho do banheiro. Tinha a mesma feição dos outros. No entanto tinha dinheiro, a cada dia mais. Mesmo sem dar muita importância ao emprego, ainda era tido em boa conta pelo patrão, que afinal entendia o drama pelo qual havia passado recentemente. Olhava o patrão. Também tinha a característica aparência do simples, assim como seus fregueses, e os demais que circulavam por aquela área.

Nas horas vazias, passou a observar os transeuntes dos grandes prédios, dos condomínios de luxo, das escolas particulares. Os chamados ricos, como ele um dia tinha convicção de que também seria, possuíam características diferentes. E também se pareciam entre si, por menor que fosse a semelhança física. Mas sua face não era como essas, e achava mesmo que nunca seria. Não se pode mudar a marca de um rosto – pensava – ao contrário da condição social, esta sim possível de ser alterada, como ele mesmo já estava fazendo ao reunir seu pequeno espólio.

Num dia de pouco movimento, prestava atenção na conversa de duas senhoras, paradas quase em frente a sua barraca, quando ouviu uma delas dizer:

”Suzana ainda vai sofrer muito na vida. Tem alma de rica, não se conforma.”

A frase tomou conta de seus pensamentos, e ele passou a idealizar a pobre Suzana, sofrida alma de rica, em sua mente jovem mirrada e incompreendida, julgada e condenada pela maledicência alheia simplesmente porque seu corpo não é como a alma, bonita e sadia. Lembrou-se das meninas que ainda seguia (não havia perdido o hábito e não sabia o porquê). Será que alguma delas teria alma de rica? Achava que não, ou haveria de reconhecer. E sonhava com Suzana, seu par ideal, alguém que, enfim, lhe compreendesse. Quando a encontrasse, o que não estaria longe, teria mais estabilidade financeira. Com esforço, ensaiou para dizer-lhe:

“Meu anjo, minha pequena alma de rica, vem comigo e vamos juntos viver nossa vocação.”

Sorria sozinho. E enquanto não a descobria, exercitava seu pensamento, adestrava sua vontade para habituar-se à vida que iria conquistar. Prestava atenção ao modo de andar dos bem sucedidos, seus gestos e seus pertences. Lia velhas revistas, folhetos de compras, certas colunas de jornais. E gostava cada vez mais do que via.

“Um dia serei rico.”

Tinha certeza.



Sds,

Daniele Barizon

sábado, 10 de março de 2012

O Militante

Segue o capítulo II de nossa pequena série:


II - O irmão e o tesouro


Aos doze anos, Simplício arranjou trabalho como ajudante numa barraca de importados, no centro da cidade. Todos os dias acordava cedo, tomava um café minguado e vencia a pé a distância que separava sua casa do precioso emprego. Ia, senão feliz, conformado, porque uma vez lhe disseram que um modo de enriquecer seria ir guardando dinheiro, cada vez mais, o que só seria possível se tivesse uma ocupação fixa. Com remuneração certa, seria bem mais fácil ir fazendo sua fortuna.


Esconder de sua mãe que estava trabalhando, para não ter que entregar-lhe o salário, foi o menor dos problemas. Ninguém lhe pedia satisfações, e contanto que deixasse vez ou outra uns trocados, como sempre fazia, não era incomodado. Desafio maior estava sendo onde ocultar as notas. No começo levava tudo consigo, dentro do único par de sapatos que usava todos os dias. Mas o par, que já era antigo, com o acréscimo de volume apertava ainda mais e incomodava. E ele sabia que a qualquer momento podia ser roubado pelos outros moleques, que ali era um lugar onde os entendidos sempre procuravam. Passou a deixá-las no quintal, embrulhadas num saco, estrategicamente embaixo de um amontoado de pedras que conservavam ali intactas desde que se entendia por gente, e onde sabia que nenhum deles iria mexer. Muito pior. Por causa disso passava os dias agoniado, imaginando que algum dos garotos pudesse encontrar seu tesouro.


“Se quiserem roubar vão ter que me encarar”, pensou por fim. E voltou a guardar o pagamento no sapato.


Naquele dia voltava satisfeito. Tinham feito vendas boas, o que lhe rendeu um faturamento extra. Por conta da gratificação adicional do patrão, que enfim reconhecia o seu empenho, estava um pouco mais rico. No bolso da bermuda, levava uma barrinha de chocolate. Presente para o irmão mais novo, Detinho.


Dois anos de idade, Detinho era o que mais se parecia com ele. Aprendendo com a necessidade a se virar desde cedo, o pequeno dava mostras de inteligência e sagacidade, e sabia conquistar os outros. Bastava um olhar e um sorriso, na rua, para que estranhos lhe dessem o que quisesse. E o que mais pedia era chocolate, que tanto amava. Pena que não saía muito de casa, ou já estaria gordo de tanto ganhar as coisas. Principalmente agora, que estava precisando. Andava abatido por causa de uma virose, que o acompanhava já fazia alguns dias. De uma hora para outra se recusara a comer e a brincar, e andava amuado. Por insistência de vizinhos, foi levado ao hospital e diagnosticado.


Receitaram-lhe alguns remédios que não foram comprados, por falta de dinheiro. Teve pena do irmão, pensou em comprá-los, mas não queria gastar seu lucro. De mais a mais, falou para si mesmo, essas gripes se curam sozinhas. Sempre foi assim com eles. Era só esperar e deixar passar. O que não gostava era de vê-lo tão tristinho. Levava o presente e já se regozijava com a carinha feliz que ele faria.



Chegando em casa encontrou o portão aberto, e uma movimentação pouco comum. Pessoas se aglomeravam pelo quintal, em grupos fragmentados, e falavam em voz baixa. Estranhando o discreto alvoroço, entrou sem ser notado e viu os irmãos na sala, sentados juntos, quietos e de cabeças baixas. Com eles uma das vizinhas, que tinha no colo e perto de si também os seus filhos. Faltava Detinho. A vizinha o encarou de modo estranho, estendeu a mão.


“Cadê Detinho”, perguntou.


A mulher estendia a mão, chamava-o para perto de si.


Um frio percorreu-lhe a espinha. Abalou-se para o quarto. A cena, que jamais iria esquecer, o chocou brutalmente. Agonizando, inerte, jazia o caçula na esteira, com a cabeça deitada no colo da mãe, que o fitava sem expressão. Do lado dela, outra vizinha. Encostado na parede, ao fundo, o padrasto mirava o chão.


“Tem jeito não”, dizia a outra.


Chegou-se para junto do doentinho, ajoelhou ao seu lado e tocou-lhe os cabelos molhados e o corpinho quente. Lágrimas caíam-lhe profusamente, não se importava que o vissem chorar, mesmo quem dissesse que homem não chora. Detinho encarava-o com os olhinhos opacos, já quase sem vida.



“Faz alguma coisa, mãe”, gaguejou. “Faz alguma coisa, nunca te pedi nada”.


A mãe nem se mexia.


“Tem jeito não”, respondia a outra.


O peito magro da criança arfava, cada vez mais devagar. Seu rostinho buscou a direção do mais velho, que lhe acariciava a cabeça. Este levou a mão ao bolso e tirou o chocolate, mostrando-o devagar. Procurou-lhe a mãozinha e o pôs entre seus dedos, que afagou e fechou delicadamente.


Detinho morreu com o doce entre os dedos.


“Tinha jeito não”, consolou a outra.


Simplício caiu em prantos. Seus sapatos nunca lhe pareceram tão apertados.



Sds,



Daniele Barizon

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Militante

Olá, amigos!

Por conta de alguns trabalhos, não temos tido oportunidade de vir aqui frequentemente. Por isso, como estamos fazendo com nossa coluna no jornal OERJ,  traremos, em alguns posts, uma pequena série de crônicas, intitulada O Militante. A sequência tem sete capítulos e integra o livro Castelos na Areia & Fatos Afins, publicado por nós em 2009. Acompanhem:


Introdução

Nossa realidade política é chata. Ninguém agüenta mais os mesmos desgastados assuntos, as mesmas eternas insatisfações, a incidência nos mesmos erros e as mesmas soluções miraculosas para os mesmos milhares de disparatados problemas. Já virou esculhambação. Não quero mais falar sério. Vamos brincar de ficção. Esse não é um fato real – não por ser ilógico ou paradoxal: a nossa história goza de casos ainda mais absurdos. Qualquer semelhança com a realidade, portanto, terá sido mero acidente de percurso... 

I – A criança

A casa era simples. Quarto, sala, cozinha e banheiro. Reboco nas paredes, tinta só mesmo na sala, um branco meio ralo. Chão de cimento, móveis envelhecidos, quintal de terra batida, com algumas plantas murchas e diversos animais magrelos e poeirentos. Ali crescia Simplício, entre os gritos da mãe, os cascudos dos padrastos e as estripulias dos meio-irmãos. Era o mais velho. Desde pequeno posto porta afora, para “trabalhar e aprender a ser homem”, como dizia a mãe.

“Engraçado”, pensava o garoto. Se o trabalho, que era importante, passava longe dos homens da casa, o que ele tinha que ver com tudo aquilo de acordar cedo e sair pela rua procurando meios de ganhar trocado? Será que em pequeno é que se fica conhecendo o trabalho e quando se cresce – quando já se aprendeu, imaginava – não precisa mais fazer esforço?

Meditava sobre isso enquanto capinava um quintal ou caminhava a esmo à procura de latinhas de alumínio para vender. Sonhava com o dia em que finalmente aprendesse a ser homem, para nunca mais ter que trabalhar. Odiava trabalhar. Gostava mesmo era de correr pelo morro com os outros moleques, de jogar futebol e de andar escondido atrás das meninas, apenas seguindo-as a distância, sem se fazer notar, como se as quisesse proteger de perigos imaginários.

Se alguém lhe perguntasse – se alguém reparasse no garotinho baixo, de cabelos sujos e roupas rasgadas – não saberia explicar o porquê de perder tanto tempo escoltando os passos de gurias que muitas vezes nem sequer conhecia. Não saberia explicar muitas coisas, aliás. Pouco entendia da vida e das causas de tantas reclamações e insatisfações. Não ligava. Não lhe importavam essas complicações dos adultos. Apenas uma coisa queria entender, obstinadamente:

Por que outras crianças moram em prédios bonitos, vão à escola e têm coisas que ele e os irmãos não têm?  
“Por que são ricos”, era sempre a resposta.

Mas por que os outros eram ricos e eles não?

“Porque a vida é assim mesmo, alguns têm e outros não”.

Mas por quê?

A paciência geralmente se esgotava aqui. E ele ficava sem a resposta, perguntasse a quem fosse.

Os dias iam se sucedendo, devagar, e nada era diferente na monótona rotina de Simplício. A não ser uma inquietação que ia nascendo, por enquanto muda e surda. Seu maior anseio ia tomando forma. E o que com frequência desejava mais ardentemente – mais até que crescer e ser homem – era ser rico.


Sds,

Daniele Barizon

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ONU lança concurso para blogueiros e prêmio será viagem ao Brasil

Extraído da revista Reciclar Já (link aqui):

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, lançou um concurso para blogueiros em todo o mundo. O prêmio é uma viagem ao Brasil para as comemorações do Dia do Meio Ambiente, em 5 de junho.

Para participar, o candidato deve escrever artigos sobre economia verde em seu blog.

Além disso, os interessados devem entrar na página do Pnuma, no Facebook, e escrever a seguinte mensagem: “Acabei de me inscrever numa competição para ganhar uma viagem ao Brasil para o Dia Mundial do Meio Ambiente 2012. Leia o meu blog e descubra como a economia verde pode incluir você.”

O autor do blog deverá produzir textos sobre o tema. Os lançamentos na página do Facebook do Pnuma poderão ser feitos até o dia 12 de fevereiro.

Jurados do Pnuma e da Treehugger irão escolher 10 finalistas. Aquele que conseguir a maioria de votos através da opção “curtir”, no Facebook, será o vencedor. Os fãs poderão votar até o fim de abril.

O prêmio inclui o bilhete de avião ao Brasil, hotel, pagamento de gastos com visto, seguro-viagem e a cobertura dos custos de viagem dentro do país para participar das comemorações.

O ganhador deverá passar três dias no Brasil.

Para saber as regras do concurso, acesse: www.unep.org/wed/blog


Vamos divulgar, pessoal! 

Sds,

Daniele Barizon

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Rapidinhas da última quarta

Teve início nesta quarta, 18, o primeiro anúncio da aguardada reforma ministerial de Dilma Rousseff. Conforme já era previsto, Fernando Haddad deixará o Ministério da Educação para concorrer à prefeitura de São Paulo. Em seu lugar, entrará Aloizio Mercadante, da pasta de Ciência e Tecnologia. Esta, por sua vez, será comandada pelo cientista Marco Antonio Raupp. As cerimônias de posse estão marcadas para o próximo dia 24.

O Ministério das Comunicações informou, também na última quarta, que a interrupção do reality Big Brother Brasil é uma das penalidades que pode ser imposta à TV Globo, por conta da repercussão de imagens de suposto estupro praticado por um dos participantes do programa. O vídeo, em que o brother citado aparece trocando carícias embaixo do edredon com a parceira aparentemente desacordada, correu como pólvora pela rede e causou indignação dos internautas. A polícia entrou no circuito e a Globo decidiu eliminar o rapaz do programa. De acordo com o ministério, o veto pode ocorrer se for constatado que as imagens veiculadas pela TV aberta estavam "em desacordo com as finalidades educativas e culturais" inerentes à concessão dos serviços de radiodifusão (que é outorgado pelo governo), conforme norma ditada pelo Código Brasileiro de Telecomunicações.

Nesta mesma quarta, completou dez anos o caso Celso Daniel. Então prefeito de Santo André, Celso Daniel foi seqüestrado em 18 de janeiro de 2002 e morto a tiros dois dias depois, em Juquitiba, na Grande São Paulo. Dentre os oito acusados pelo homicídio, somente Marcos Roberto Bispo dos Santos foi condenado a 18 anos de prisão em regime fechado. Sergio Gomes da Silva, apontado como principal autor do crime, responde ao processo em liberdade. Dois outros suspeitos chegaram a ser presos e cumpriram pena, mas foram libertados sete anos depois. Vale lembrar que após o início das investigações, diversas pessoas ligadas ao caso foram assassinadas, inclusive um garçom. Sua ex-esposa (embora estivessem separados à época do assassinato), Miriam Belchior, é hoje ministra do Planejamento.

Por Daniele Barizon
Para o WebJornal O Estado RJ em 23/01/2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Ano novo, política nova. Será?

Em expectativa pela proclamada reforma ministerial de Dilma, o ano começa dando mostras de que não será muito diferente do anterior, no que toca ao governo federal. A mandatária goza de boa popularidade – que não é fácil, tendo-se sucedido o presidente mais popular da história do país, ainda que com o apoio dele – e tem maioria na Câmara e no Senado, o que não é nada ruim.

Enquanto alguns integrantes da situação e da oposição destas casas, aliás, esticam suas férias, explodem denúncias de que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, teria favorecido seu estado, Pernambuco, com 90% dos recursos destinados pela pasta para a prevenção de catástrofes. Seu antecessor, Jaques Wagner, teria feito o mesmo pela Bahia. Ambos negam as irregularidades.

A nível estadual, reflexos dos estragos causados pelas chuvas em todo o país, principalmente nos estados de Minas e Rio de Janeiro. No primeiro, mais de 60 cidades encontram-se em estado de alerta. No segundo, a região noroeste segue como a mais castigada. Em Campos dos Goytacazes, um dique rompeu-se e inundou todo o distrito de Três Vendas. Embora não tenha sido possível evitar estragos, os moradores puderam ser retirados com segurança.

No Rio, permanece a demora na entrega de casas populares a grande parte dos afetados pelas chuvas na região serrana em 2011. O governador Sérgio Cabral negou que houvesse burocracia ou problemas no repasse das verbas federais para esse fim, conforme aventado. De acordo com Cabral, a prioridade foi atender as famílias atingidas por meio do aluguel social, de R$ 500,00, além da implantação de sistema de alerta de chuva forte em comunidades de risco. Em Nova Friburgo, o atraso na construção de casas foi explicado pela demora na escolha e regularização dos terrenos. As obras devem ser concluídas este ano.

Ainda há previsão de chuvas em janeiro. Nossa torcida é para que, neste intervalo, a situação não piore. E a dos nossos políticos também, cremos. Afinal, estamos em ano eleitoral, não é mesmo?

Por Daniele Barizon
Publicado no Webjornal O Estado RJ - Coluna Política e Economia em 09/01/2012


**Bom estar de volta! Essa semana atualizamos os comentários!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS!!


Amigos,

Que o Natal e o Ano Novo sejam repletos de paz, saúde e prosperidade, ao lado daqueles que amamos! E que em 2012 estejamos todos aqui, juntos, compartilhando alegrias e experiências por meio desta maravilhosa ferramenta virtual que é a Blogosfera.


















Nos vemos em 09/01.

Sds,

Daniele Barizon